“Mas você não tem voz de japonesa, tem voz de locutora”

Foto: Cassiana Der Haroutiounian

Comentário ouvido depois de ter que soletrar K-O-S-H-I-M-U-R-A numa ligação de trabalho – na hora, tomei como um elogio

Tinha uns 20 e poucos anos e havia recém-superado toda uma infância e adolescência sendo chamada de japinha na rua por completos desconhecidos. Na escola, morria de vergonha quando falavam do Japão nas aulas de história porque todos da classe voltavam seus rostos para mim, como se EU tivesse bombardeado Pearl Harbor. Na faculdade, lembro que escutei de canto de ouvido a conversa entre dois caras: “o melhor era pegar japonesas porque elas são fáceis”. Mal sabiam que tinha uma japa ali dando mole, bem atrás deles.

De forma consciente, escolhi me afastar do Japão. Não assistia Cavaleiros do Zodíaco, não queria andar só com amigos asiáticos no colégio e nem frequentava as famosas “baladas japa”. Queria me afastar de tudo que pudesse reforçar ainda mais os estereótipos que vinham junto com meus olhos puxados e sobrenome difícil. Antes mesmo de poder me identificar com a cultura dos meus ancestrais ou de criar algum tipo de vínculo com o Japão, o mundo inteiro já me taxava de “japonesa” ou, em outras palavras, de nerd, cdf, quietinha, boazinha, tímida, cosplay, beleza exótica, submissa. Ser apenas uma criança ou uma menina não era possível.

Entendo que parte da origem desse sentimento de negação estava diretamente relacionada à maneira como o Japão era apresentado para o mundo: robôs, coisas estranhas, gueixas (e o eterno rótulo de “mestres na arte de sedução”), meninas vestidas de colegiais de cabelo colorido. Mesmo hoje, se fizermos uma pesquisa por “Japão” no Youtube Brasil, vemos que entre os vídeos mais visualizados – na casa dos milhões – existem muitos que reforçam aspectos tidos como estranhos ou esquisitos do país. É muito fácil ganhar views com títulos como: “Veja como o Japão é bizarro”.

Diante disso tudo, gostava quando achavam que eu era mestiça e ficava feliz de ouvir um “até que seus olhos são grandes para uma japonesa”. E quando o cara ali falou que minha voz não era de japonesa, fiquei aliviada – era uma forma de arrancar de mim aquele rótulo do qual eu queria me livrar.

Mas aí vieram muitas mudanças: curiosidade em conhecer a história da minha família, vontade de morar fora, desejo de morar no Japão – e a consequência disso tudo é o que eu venho produzindo para o Peach no Japão e também para outros projetos relacionados ao país. O blog acabou se tornando um veículo para mostrar o Japão do jeito que eu o vejo: um país plural – não só dos robôs, coisas estranhas, gueixas e meninas vestidas de colegial. E hoje entendo o absurdo que é classificar a voz de alguém como de “japonesa” ou “não japonesa”.

Se é para falarmos de voz, sinto sim que tenho uma. Não necessariamente de locutora, mas uma voz que surgiu aqui, nas páginas do que era meu diário online anos atrás, e que agora ecoa (com microfone e tudo) nos eventos para os quais me convidam para falar sobre tudo o que venho pesquisando e vivenciando nesses últimos tempos. Como é bom poder falar sobre tudo isso cara a cara com vocês, vendo a reação de cada um! Agradeço demais por todas as oportunidades que vêm surgido – e aguardo ansiosa por aquelas que vêm pela frente.

Num papo com Cláudia Nakazato no evento Hanashitai, na Aliança Cultural Brasil Japão, em dezembro/2018 (Foto: Leonardo Eiji Koshimura)
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