Kimono, calcinhas e o poder do backlash

Kim Kardashian em meio às peças de sua marca de lingerie modeladora lançada como Kimono

No último dia 25, Kim Kardashian anunciou no Instagram o lançamento de uma marca de calcinhas, bodies e sutiãs modeladores chamada – isso mesmo – Kimono. Para quem não é deste planeta e precisa de uma contextualização, Kim Kardashian West é uma empresária, socialite, modelo, estilista e produtora norte-americana que ganhou popularidade participando de um reality show para a tv. Esse West foi incorporado ao seu nome depois do casamento com outra celebridade, o rapper Kanye West.

Com uma pegada inclusiva, as peças do que ela chama de “shapewear” vão do XXS ao 4XL, em 9 tons de pele. A ideia é modelar o corpo para que ele pareça mais “em forma” (meu ponto aqui não é discutir padrões de beleza, por isso, coloco apenas as aspas): segurar as gordurinhas, marcar a cintura, sustentar o bumbum – tudo isso sem as marcas que ficam no corpo com lingeries tradicionais. Tem até um modelo de shorts com uma das pernas cavadas para quem quer usar uma fenda ultra profunda.

Os quase 3 milhões de likes no post que anuncia a coleção não negam: muitas mulheres ficaram animadíssimas com a novidade. Mas o que, de fato, essa coleção de roupas íntimas tem a ver com kimono, o traje típico japonês? Tirando o fato de que ambos são “coisas de vestir” (que é, aliás, a tradução literal da palavra japonesa), lamento dizer que nada.

O modo de usar as tradicionais roupas japonesas, usadas por homens e mulheres, foi estabelecido entre os séculos VIII e XI. Muito diferente da proposta de modelar o corpo, o kimono cobre a silhueta e, no caso das mulheres, omite as curvas, deixando um shape retilíneo graças ao uso de camadas de faixas que envolvem a cintura por baixo da faixa-cinto chamada de obi. “E onde vai parar a feminilidade ou o charme?” – vocês podem estar se perguntando. 

Na nuca.

A criação de um kimono envolve artesãos habilidosos por trás do processo de tecelagem, tingimento, estamparia, costura e outras muitas etapas. Diz-se que do casulo de seda ao produto final, existem mais de mil processos, cada um deles atribuído a especialistas diferentes.

Ao ver uma palavra japonesa que designa algo tão próprio de sua cultura sendo usada de forma tão aleatória por conta de uma futilidade, no caso, o trocadilho com o nome de sua criadora, os japoneses reagiram. E bastante.

Dear @KimKardashian Kimono is our precious culture that means so much to us than you think. This is Kimono that our heart belongs to. You disrespect not only us but our Japanese ancestors who preserved kimonos today. Reconsider the name, please. #KimOhNo #Kimono pic.twitter.com/34Hnd2mmcn— Saki (@sakijapanesegal) June 29, 2019

Wow, @KimKardashian.
Thanks for BUTCHERING Japanese culture!!! My culture is not your plaything.
You don’t have any respect for people who are not your family, do you?
In the 15 yrs developing this project, couldn’t you find a cultural advisor?#KimOhNo #culturalappropriation https://t.co/OsDYVZxPhx— 🍤kasumi🦄✨ (@kasumihrkw) June 26, 2019

#Kimono is special for Japanese
Nobody steal our culture🇯🇵#KimOhNO 😢😢😢

1970 pic.twitter.com/UILz2l2ukO— はりお@時々着物 (@everydaycrochet) June 29, 2019

Por se tratar de uma grande manifestação online, obviamente uma hashtag exclusiva foi criada: #KimOhNo.

Isso tudo acabou gerando um buzz enorme na mídia mundial: deu na BBC, The Guardian, CBS, FOX, Le Monde – enfim, todo mundo fazendo a cobertura não necessariamente da nova empreitada de Kim Kardashian, mas do efeito backlash provocado pela escolha do nome.

Backlash: Um forte reação negativa de um grande número de pessoas, principalmente em relação ao um acontecimento social ou político (tradução livre da definição do dicionário de inglês Oxford)

Até o prefeito de Kyoto, cidade que ainda preserva construções históricas e muitas tradições, manifestou seu descontentamento numa carta enviada a Kim Kardashian

No documento, Daisaku Kadokawa afirma que o governo tem tomado medidas para tornar a cultura do kimono parte da relação de Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade, chancelada pela UNESCO. “Achamos que nomes para “kimono” são o ativo compartilhado com toda a humanidade que ama kimono e sua cultura, portanto não deve ser monopolizado”.

Por monopólio, talvez ele esteja se referindo ao fato de que acessando o perfil @kimono no Instagram e o domínio kimono.com éramos encaminhados à coleção de calcinhas desenhadas pela celebridade.

No dia 1o de julho, menos de uma semana depois do anúncio do lançamento da marca, ela voltou atrás e afirmou no Twitter que vai repensar no nome do projeto ao qual se dedicou no último ano:   

My brands and products are built with inclusivity and diversity at their core and after careful thought and consideration, I will be launching my Solutionwear brand under a new name. I will be in touch soon. Thank you for your understanding and support always.— Kim Kardashian West (@KimKardashian) July 1, 2019

Particularmente, não sou de acompanhar a vida de celebridades, mas tenho noção do impacto que alguém como Kim Kardashian possa causar no mundo do entretenimento, moda, cultura pop e comportamento. Com mais de 140 milhões de seguidores no Instagram, seu poder é inquestionável. Em apenas um dia de conta, por exemplo, o perfil da marca na rede social já tinha mais de 100 mil seguidores.

O combo celebridade + internet + tradição-que-vai-se-reduzindo-a-datas-festivas poderia ter consequências dramáticas no médio, longo prazo. Por isso, acho legítima uma das preocupações levantadas em meio ao backlash: para muita gente, haveria o risco de que a palavra “kimono” passasse a ser associada apenas à marca de roupas íntimas, tornando em vão os esforços que muitos japoneses e entusiastas fazem para tentar preservar a memória das tradições.

Cultura não é um bem imutável – tenho plena consciência disso. Tudo se transforma e vai se adaptando em meio a um conjunto de fenômenos complexos, sejam sociais, econômicos ou políticos. A perda do hábito de usar kimono no dia a dia, inclusive, é resultado de uma série de fatores que vão das consequências do Período Edo, iniciado no século XVII, às transformações do pós-guerra, na década de 40 e 50. Mas, colocar em risco o que resta de uma tradição por conta de um capricho pessoal, diria que é irresponsável e mesquinho.

Mari Uechi me vestindo durante o workshop sobre kimono, de Isabel Mascaro, em evento no Sesc Pompeia/SP
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Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias ;)

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