Mar do tempo: um memorial às vítimas do Grande Terremoto de Tohoku de 2011

Uma prévia de "Sea of Time - Tohoku", de Tatsuo Miyajima, exibida na exposição Stars, do Mori Museum, em Tóquio (2020)

Eu não vivenciei o Grande Terremoto e Tsunami de Tohoku, que hoje completa 10 anos. Decidi, então, falar de uma obra que me toca muito. Sea of Time (“mar do tempo”, em tradução livre), de 1988, é o trabalho de estreia do artista Tatsuo Miyajima, que, desde então, vem desenvolvendo variações da obra, sempre usando contadores digitais de LED e trazendo à tona uma questão essencial da vida: o tempo.

Quem esteve em Naoshima, a ilha das artes da qual tanto falo, talvez se lembre desta versão de Sea of Time, de 1998 (Foto: Norihiro Ueno / tatsuomiyajima.com)

Após a catástrofe de 2011, Miyajima propõe a criação de um memorial com o projeto “Sea of Time – Tohoku”. Três mil contadores digitais de LED mostram a passagem do tempo marcando de 9 a 1, ficando preto quando chega em zero. A velocidade da contagem de cada um dos marcadores é definida por familiares das vítimas ou por pessoas que, de alguma forma, tiveram suas vidas profundamente abaladas por aquele 11 de março. Cada marcador vai de 9 a zero em ritmos diferentes. Uns mais rápidos, outros mais lentos. Vemos, então, que o ritmo da passagem de tempo é único para cada contador – o que representa a individualidade e unicidade de cada vida. O zero simboliza a morte e, ao mesmo tempo em que fecha o ciclo, dá início a um novo, indicando renascimento.

A ideia do projeto é que os contadores à prova d’água sejam dispostos dentro de uma grande piscina na cidade de Ishinomaki, de frente para o Oceano Pacífico, em Miyagi, uma das províncias mais devastadas pela tragédia.

Croqui do projeto Sea of Time – Tohoku (Fonte: tatsuomiyajima.com)
Contadores digitais de LED marcam de 9 a 1, ficando pretos no momento zero (Foto: Norihiro Ueno)

Esta obra está em fase de execução e tem previsão de conclusão em 2027, após um período de 10 anos de produção. Para viabilizar o projeto, Tatsuo Miyajima contou com o apoio de 186 colaboradores numa bem sucedida campanha de financiamento coletivo.

No site oficial do projeto, tem um texto lindo sobre o conceito de Sea of Time – Tohoku. Me arrisquei numa tradução livre para o português, que muito provavelmente não é a mais adequada. Mas espero que dê para entender a profundidade das intenções do artista, que deseja criar um memorial à região de Tohoku e às vítimas do desastre.

O artista espera que esta obra possa ajudar as pessoas a voltarem no tempo, a um momento específico: 11 de março de 2011. Uma data que chacoalhou nossos valores e nossa visão de mundo.

Naquele momento, sentimos desespero, impotência, vazio, raiva e temor da natureza. Naquele momento, pudemos apreciar a gentileza, a conexão e os laços. Naquele momento, acreditamos na amizade, na esperança, nos nossos corações e na nossa força. Naquele momento, juramos refletir, tomar decisões e fazer promessas.

Mas pouco a pouco aquele momento se esvai.

É por isso que voltaremos no tempo, por meio desta obra. Àquele momento específico, para ver nossos entes queridos. Para encontrar nossos corações naquele momento. E sentir a emoção dos outros naquele momento.

Queremos criar um lugar que permita nos encontrarmos com nossos entes queridos.

E lembrar os pensamentos e sentimentos daquele momento novamente.

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